"A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

(Graciliano Ramos)



terça-feira, 19 de agosto de 2008

ESTRADA REAL

ESTRADA REAL – Ouro Preto x Paraty
(CICLODIÁRIO)

Terei a vida simples, Discreta...
Andarei pela estrada certa, Modesta, Reta.
Subirei a serra, Descerei a montanha Amontoando em mim Cada curva do caminho,
Cada sonho, Cada paisagem...
Andarei de bicicleta,
Andarei devagar, Bem devagar...
E brincarei de vagar por aí,
Pelo planeta,
Em uma diária e renovada viagem em busca do sem fim...
( Petrônio Souza Gonçalves)


Relato da viagem realizada entre os dias 02 e 12/08/2008 pelo Caminho Velho da Estrada Real, de Ouro Preto (MG) a Paraty (RJ).
Faltando apenas dois dias para o início da viagem - não importa se é a primeira, a segunda ou a centésima vez - a ansiedade é sempre a mesma. À medida que o dia da partida se aproxima a ansiedade aumenta.
Em princípio a viagem seria realizada por quatro ciclistas – eu, Pacheco, Lotério e Nelson -, mas a dinâmica do dia-a-dia acaba prevalecendo sobre a nossa vontade e nem tudo acontece como planejamos. Enfim, dos quatro sobramos eu e Pacheco para realizar a viagem.
Aventureiros e curiosos, acompanhem-me em mais essa cicloaventura.

A aventura começou antes mesmo de sair de casa. As passagens para BH já estavam compradas e quase se perderam quando do passeio a Lagoa de Cima (Campos dos Goitacazes/RJ). Durante uma das travessias da lagoa a mochila de Pacheco, onde estavam as passagens, se molhou e as passagens quase vão para o beleléu.
Às 17 h 10 min do dia anterior ao embarque para BH Pacheco me liga para dizer que não iria mais devido a problemas no trabalho e, infelizmente, eu não poderia adiar a viagem, então segui sozinho mais uma vez.
Bom, vamos em frente.

31/07 => Embarque para BH no ônibus das 21 horas e chegada às 06:45. Às 7 horas peguei o ônibus para Ouro Preto, chegando às 8:45.

01/08 => Após estar instalado em OP e tomar um bom café saí para dar umas voltas pela cidade, visitando alguns pontos históricos:
Casa dos Contos: sede da administração e contabilidade pública da Capitania de Minas Gerais. Abriga vários documentos desta época, além de uma biblioteca.
Museu da Inconfidência: exibe arte sacra, sepultura dos inconfidentes e réplicas de obras de Aleijadinho.
02/08 => Ouro Preto (1130 m) – Conselheiro Lafaiete (960 m). 60,3 km: Percorri alguns quilômetros a mais porque pequei a direção errada e tive que voltar (somente uns dois ou três quilômetros). De Ouro Preto a Ouro Branco (1075 m) há umas subidas fortes, principalmente próximo a Ouro Branco. E tome subida! Bem que me avisaram.
Saída de Ouro Preto às 8:10, mas antes tirei algumas fotos com a ajuda do Régis, colega de quarto do Albergue da Juventude. Mineiro de BH, bom companheiro, falante e curioso a quem agradeço o envio das fotos de Ouro Preto e a boa companhia.
Temperatura na saída de Ouro Preto: 18 ºC à sombra.
De Ouro Branco a C. Lafaiete não há muitas subidas fortes.
Chegada a C. Lafaiete: 16:10.
A meio caminho entre Ouro Branco e C. Lafaiete fica a Casa de Tiradentes, local onde eram realizadas as reuniões dos inconfidentes.
Curiosidade de algumas pessoas: “sua mulher não fala nada não?”. Fazer o que, né?
03/08 => C. Lafaiete – São João Del Rei (920 m). 102,7 km: Saí de C. Lafaiete às 6:55 com a temperatura em 13 ºC e segui na direção a Queluzito pela da BR-040, sem acostamento, mas com pouco trânsito.
Em Casa Grande (990) fiz um lanche reforçado na única padaria da cidade e comprei bananas e maçãs para não precisar parar para almoçar. Na pracinha da cidade encontrei os garotos Gabriel e Cristian, com quem conversei um pouco e bati fotos.
Saí de Casa Grande às 11:15 e entrei por uma estradinha de terra muito poeirenta, mas bem demarcada pelos totens da ER, percorrendo 26 km até terminar a estrada de terra e entrar na BR-256, passando por Lagoa Dourada.
Nas proximidades de Prado resolvi ir direto para São João Del Rei para ganhar tempo, chegando às 17:05 com a bunda doendo depois de um dia inteiro pedalando e segui para a casa de Lincon - antigo colega de trabalho e hoje aposentado - para esperar o Carlos que ia me receber, mas ao chegar numa esquina, avistei um sujeito em pé e fui perguntar se era por ali que eu ia para a rodoviária nova (uma referência que Carlos me deu), ao que ele respondeu: “tenho dúvidas”, sem sequer olhar para mim. E ficamos assim, os dois mudos por alguns segundos. A sorte é que vinha um rapaz passando bem na hora e me explicou. Depois dizem que eu é que sou maluco.
Dormi no sítio de Lincon, a 8 km do centro da cidade. No dia seguinte acordei cedo, dei umas voltas pelo sítio curtindo um frio maravilhoso às 7 horas da manhã e bati algumas fotos. Como o Carlos não acordava resolvi sair, deixando um bilhete.
Na cidade deixei a bicicleta numa pequena oficina para limpar e verificar uma pequena folga nas catracas que vinha provocando alguns estalos na corrente e falhando nas pedaladas. Depois disso saí rodando pelo Centro Histórico a pé e logo em seguida peguei uma Moto-Taxi para Tiradentes. Só 20 minutinhos. Às 13 horas almocei e peguei o ônibus de volta para SJDR, apanhei a bicicleta na oficina toda melada de óleo diesel e retornei para o sítio, não sem antes errar o caminho duas vezes e subir uma ladeira enorme empurrando a bicicleta.
Surpresa! A máquina fotográfica pifou. Na troca do segundo para o terceiro filme a máquina não quis mais funcionar. Amanhã eu vejo o que fazer.
Outra surpresa. Está trovejando e acho que vai cair um temporal. São 19:05.
Foi uma pena o amigo Lincon não estar em São João, pois ele precisou ir a BH resolver assuntos pessoais e não sabia da minha visita. Falha minha de não ter avisado com antecedência. Mas, de qualquer forma, fui muito bem recepcionado por Carlos que me deixou à vontade, me dando total liberdade.

05/08 => São João Del Rei (920 m) – Carrancas (1035 m). 122,5 km: Saída às 5:40 do sítio com temperatura em 20 ºC dentro de casa e sem café. Não choveu como eu temia.
A estrada é de asfalto novo com acostamento e visual muito bonito, mas cadê a máquina?
32 km de pedal e nenhum lugar para tomar café. Ainda bem que não saio sem a minha ração, e ainda por cima perdi os óculos de sol.
Puta que pariu! Errei o caminho e estou indo para Madre de Deus de Minas, mas encontrei o músico-caroneiro Vicente na beira da estrada e ele me explicou direitinho a merda que fiz. De qualquer forma estou indo em direção a Minduri, mas não vou passar em Carrancas e muito menos em Caquende.
O dia está uma beleza para pedalar: sem sol, sem vento e temperatura variando entre 16 e 18 ºC.
Cheguei a Madre de Deus de Minas (945 m) às 10:30 após 52 km pedalados para uma pausa e café...Até que enfim!
No caminho até aqui havia uma plantação de girassóis linda, mas, cadê a máquina?
Após o café segui em frente, em direção a Minduri, parando para almoçar às 13:55 e decidir se entro em direção a Carrancas (42 km) ou sigo para Minduri (25 km).
Próximo a São Vicente de Minas há um restaurante – Paiol de Minas -, próximo ao qual há uma estrada de terra que leva a Carrancas. Depois de conversar com a dona e pesar os prós e contras decidi ir para Carrancas. A estradinha era boazinha, mas sem sinalização. Às vezes eu parava um carro ou uma moto para me certificar da direção e mesmo assim consegui errar o caminho uma vez. Estrada com algumas subidas muito fortes, mas nenhuma comparada à última, já próximo a Carrancas. Era de matar! Uma subida não muito longa, porém muito íngreme calçada com bloquetes. Me senti um jegue empurrando a bicicleta morro acima com as sapatilhas estalando como ferraduras e escorregando no calçamento.
Concluí o trajeto à noite, adentrando Carrancas às 19:40 e me hospedando na primeira pousada que vi – Pousada Caminho das Águas. Que sufoco! No dia seguinte fiquei sabendo que se eu viesse pelo caminho certo a subida seria pior. Cruz-credo!
Descontando a perda dos óculos, a máquina pifada, o caminho errado e as subidas, o dia foi bom (foi?).
Os grandes atrativos de Carrancas são as cachoeiras. São 52 catalogadas pelo IBAMA.
Contratei um guia (agência Minas Trilhas Gerais) para percorrer algumas das cachoeiras da região:
Cachoeira da Fumaça, onde praticamos rapel;
Cachoeira Véu de Noiva;
Cachoeira Serrinha;
Complexo Vargem Grande;
Cachoeira Esmeralda;
Cachoeira Luciano.
À noite, como ninguém é de ferro, comi um filé de truta grelhado com molho de alcaparras acompanhado de duas taças de vinho. Maravilha!
Uma detalhe curioso de Carrancas é que o sino da igreja toca a cada 15 minutos e fica localizada a uns 200 metros da pousada em que eu estava. Que legal!

07/08 => Carrancas – Cruzília (1060 m): Saída de Carrancas às 7:33 com temperatura de 23 ºC, chegando a Cruzília às 13:55.
De Carrancas a Cruzília são 62 km de estrada de terra. Estradinha boa e bem sinalizada pelos marcos da ER e com muitas subidas. Nada de matar, dava para levar no pedal...Menos uma logo na chegada.
Cruzília é o berço do cavalo Manga Larga Marchador. Em meados do século XIX o então Imperador D. Pedro II deu um cavalo da raça européia Alter Real de presente a um fazendeiro da região (fazenda Traituba, hoje um lindo hotel-fazenda) que depois de alguns cruzamentos gerou o cavalo Manga Larga.
Resolvi ir para Caxambu (900 m). Cruzília não tem muitos atrativos. Após tomar um Gatorade, três sucos de laranja e comer um pastel de queijo saí rodando pela cidade para tentar resolver o problema da máquina. Acabei comprando uma nova e segui em direção a Caxambu às 16:05.
Na entrada de Caxambu encontrei com Reinaldo correndo e empurrando a bicicleta com o pneu furado. Fomos conversando e acabei descobrindo que ele tem uma bicicletaria e combinamos de eu levar a bicicleta no dia seguinte para ele dar uma olhada.
De Cruzília para Caxambu não tem muitas subidas fortes, somente uma logo após o trevo saindo de Cruzília. O resto é mais descida, mas em compensação o céu se manteve sem nuvens e o sol bateu forte todo o tempo.
Total do pedal: 93,3 km.
Mais uma surpresa: ao retirar a bagulhada do bagageiro percebi que ele estava quebrado. Amanhã eu vejo o que fazer.
Comprei bepantol para passar no beiço que está muito ressecado devido a baixa umidade do ar.
Em Caxambu choveu a noite toda, até de manhã. Agora vou sair para levar a bicicleta na oficina e ver se soldo o bagageiro.
Há dias que tudo se resolve. Amanheceu ainda chuviscando um pouco, mas nada que atrapalhasse meus planos: levei a bicicleta para o Reinaldo e o bagageiro para que ele me indicasse onde consertar e, por coincidência, a pessoa que faria o serviço estava em frente a bicicletaria e a oficina era bem ao lado. Ele soldou o bagageiro e instalou um pequeno reforço.
Fui fazer uma visita ao Parque das Águas ainda chuviscando um pouco, lá pelas 10:30. mas daí em diante não choveu mais.
Quando fui pegar a bicicleta recebi um telefonema da colega Josane para me informar que o compromisso que teríamos nos dias 13 e 14 foi cancelado porque o pessoal conseguiu dar conta de tudo o que faltava. Sendo assim fiquei mais à vontade para concluir o percurso sem pressa.
A bicicleta parece que ficou boa. Vamos ver daqui para frente como ela se comportará.
Resumindo: conserto da bike, do bagageiro e cancelamento do compromisso. Isso tudo de uma vez só. E ainda fiquei conhecendo Roberta Kely, vencedora da primeira prova do MTB 24 horas, realizada em Itupeva (SP) nos dias 19 e 20 de julho de 2008, seu marido Fernando que lhe dá a maior força e o filho Gustavo que ficou em segundo lugar por uma diferença de milímetros na 4ª. etapa do Campeonato Regional de Ciclismo, realizada em Caxambu no dia 20 de julho. A galera é muito bacana. Vou ficar com saudades...mas eu volto.
Conheci uma livraria muito simpática – Sabor do Saber -, onde Bruno e Ketlin têm um atendimento 10. Além de livros novos para venda há um acervo de mais de três mil títulos para locação por apenas R$ 2,50 por 21 dias. O mais interessante é que os livros para locação são frutos de doação.

09/08 => Caxambu – Passa Quatro (884). 60 km. Saída de Caxambu às 7 horas com temperatura em 17 °C. A BR-354 e MG-159 não têm acostamento.
A alternativa de ir pela estrada de terra foi descartada por causa da chuva que caiu no dia anterior.
A estrada tem algumas subidas longas, mas não muito íngremes, principalmente a primeira, logo após o trevo, na saída de Caxambu (aproximadamente 8 km, mas não medi).
Chegada a Passa Quatro às 12:05 no restaurante Ponto Quatro, na entrada da cidade, onde almocei e descansei um pouco.
Às 14:30, após providenciar o hotel, fui fazer o passeio da Maria Fumaça que percorre um trecho da Serra da Mantiqueira até o túnel que faz divisa entre os estados de MG e SP. Este túnel tem 997 metros de extensão e foi inaugurado por D. Pedro II em 1881, sendo palco das revoluções de 30 e 32.

10/08 => Passa Quatro – Guaratinguetá (520 m). 68,8 km: Caiu um temporal à noite e amanheceu ainda chuviscando.
Temperatura na subida da Serra da Mantiqueira: 15 °C...14...13...12 °C a 1100 m de altitude.
A subida da Serra da Mantiqueira não foi tão difícil quanto pensei. Apesar de ser uma longa subida (talvez uns 8 km), ela não é muito íngreme, mas estava muito frio, principalmente na descida, onde o vento gelava.
Saída de Passa Quatro: 8:40.
Em Cachoeira Paulista parei para almoçar e ser mordido pela cachorra. Ao me dirigir para o banheiro não vi uma cachorrinha deitada no tapete e, ao passar perto dela a danada me atacou. Nada além de uns arranhões na canela.
Chegada em Guará às 14:30. Fiz contato com Luiz Verza e me instalei no hotel recomendado por ele. Mal me instalei o sol apareceu.
Na saída de Passa Quatro parei para comprar água e o rapaz do bar fez um mapa e me explicou o caminho para Guaratinguetá sem trafegar pela Dutra. É só ir em direção a Cachoeira Paulista e depois entrar em direção a Canas, passando pela cidade e ir margeando a linha férrea até Lorena. Após atravessar a cidade de Lorena é só seguir em frente que chega-se a Guará.
O amigo Luiz me apanhou no hotel e me mostrou os principais pontos da cidade, inclusive o caminho que eu deveria pegar para seguir no dia seguinte. Depois do passeio fomos tomar um chopinho porque ninguém é de ferro e em seguida fomos comer um lanche no quiosque do seu amigo Luciano (Bob Soccer). Valeu Luiz.

11/08 => Guará – Cunha (937 m). 50 km: Às 7:25 saí de Guará com temperatura em 17 °C.
A 11 km do centro de Guará entra-se à direita numa estradinha de terra, evitando trafegar pela Dutra. Logo em frente começa uma subida de aproximadamente 10 km e em seguida entra-se numa estrada asfaltada, sem acostamento e esburacada.
Pela estrada de terra sobe-se até 1030 m de altitude. É bem demarcada pelos marcos da ER.
A visita ao Parque Estadual da Serra do Mar e à Pedra da Macela fica para a próxima porque o tempo é curto.

12/08 => Cunha – Paraty. 68,8 km: Saída às 7:10. T = 17 °C.
Logo na saída de Cunha há uma ladeira de uns 1000 m para aquecer. Há também umas subidas fortes até uma cachoeirinha na beira da estrada a 20,8 km que serve como ponto de descanso (1280 m de altitude), a partir da qual sobe-se até 1430 m, onde fica a divisa dos estados de SP e RJ, no alto da Serra da Bocaina. Daí para frente despenca-se até Paraty numa descida de 20 km. Metade em estrada de terra, com muuuuitas pedras. A segunda metade é asfaltada e com muuuuitas curvas.
Paraty. Chegada às 13:30 na Pousada Walter. T = 32 °C.
Em Paraty permaneci o restante do dia, tomando o ônibus no dia seguinte para o Rio e daí para Campos.
Bom pessoal, espero que tenham curtido a minha pequena aventura. Conto com o apoio e a companhia de todos na próxima.
Um abraço.

As informações acima foram obtidas de várias fontes tais como: Internet, Guia 4 Rodas, moradores, inscrições nos marcos da ER (totens), jornais locais e o relato da viagem realizada por José Maurício de Barros que serviu de ótima referência, principalmente quanto às altimetrias. (www.estradareal.org.br/diari_viaje/detal_viaje.asp?codigo=20).

Os números da viagem:
Distância total percorrida: 623 km
Altitude máxima: 1430 m
Temperatura mínima durante o trajeto: 12 °C (alto da Serra da Mantiqueira)
Temperatura máxima: 33 °C
Velocidade máxima: 72,6 km/h
Maior velocidade média: 15,6 km/h
Menor velocidade média: 11 km/h
Peso da bagagem: 11 kg (estimado porque não pesei)
Maior distância percorrida em um dia: 122,5 km – de São João Del Rei a Carrancas.
Menor distância percorrida em um dia: 50 km (Guaratinguetá – Cunha)
Pneus furados – uma curiosidade constante: nenhum

Um comentário:

Petterson disse...

Gostaria de fazer a viagem de Passa Quatro de moto até Paraty... Quais são as dificuldades que poderei encontrar? grato

envie email para pettersonchiaradia@yahoo.com.br