"A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

(Graciliano Ramos)



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sábado, 20 de dezembro de 2008

ENTREVISTA – VALDO

Valdecir João Vieira é uma dessas pessoas a quem admiramos com facilidade. Catarinense de Joinville, Valdo é um apaixonado pelo que faz – pedalar. O ex-padre que adora viajar de bicicleta conhece 28 países, fala português, espanhol, italiano e inglês, conhece a língua indígena tukano e duas línguas africanas de Moçambique, Chinhungue e Ronga, e garante: “O maior prazer de uma viagem é fazer amizade, conhecer pessoas e, de maneira simples e cordial, compartilhar momentos de alegria em diversas comunidades diferentes”.

BSL: Como você começou a fazer cicloturismo? O que o motivou?

VALDO: Comecei quase por acaso. Em 2003 eu tinha acabado de voltar de Roma depois de ter passado por uma situação melindrosa com a perda de uma bolsa de estudos. Eu estava bastante abalado e por isso resolvi viajar. Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia e Paraguai. E foi em Cusco, no Peru, que eu vi, pela primeira vez, um cicloturista com quatro alforjes na bicicleta. Aquilo me chamou tanto a atenção que as pessoas até comentaram a minha atitude. A partir daquele momento comecei a pensar na possibilidade de fazer uma viagem de bicicleta.
Ao chegar a Curitiba, precisei apenas de 10 dias para montar uma bicicleta, comprar os alforjes e treinar no parque. No dia da partida o odômetro marcava 100 km. A primeira viagem foi de 4.070 km = Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai e volta para Curitiba.

BSL: Qual foi a viagem que mais te marcou? Por quê?

VALDO: De todas as viagens tenho boas recordações. Mas a que mais me marcou mesmo foi o Pedal nas Nuvens, uma aventura no Deserto de Siloli, na Bolívia onde pedalei entre os quatro e cinco mil metros de altitude. O que antes eu não conseguia nem sequer imaginar, de repente se tornou realidade. Descobri que do alto dos meus 63 anos eu ainda era capaz de vencer grandes desafios. A minha confiança e auto-estima aumentou muito depois desta viagem. Venci os meus temores. Dominei o medo.

BSL: Por falar em medo, você não acha que é loucura sair andando sozinho por aí de bicicleta? Você não tem medo?

VALDO: Eu acho que é loucura a gente chegar à terceira idade e “pendurar as chuteiras”. Cada idade tem a sua beleza e é preciso saber vivê-la na sua plenitude. É verdade que é preciso muita determinação e força de vontade para realizar sozinho uma grande viagem de bicicleta. Ainda mais se esta bicicleta for uma Tanajura, uma Cruzbike, uma Reclinada com tração dianteira. Mas a alegria que a gente sente em vencer os desafios é tão grande que até os próprios temores desaparecem. Viajar sozinho tem a vantagem de poder interagir com as pessoas pelo caminho. Em geral você é admirado e as pessoas se identificam com o cicloturista.
BSL: O seu mais novo projeto é o Pedalando pela Paz. Fale um pouco sobre ele e de como pedalar pode contribuir para a paz.

VALDO: O Projeto Pedalando pela Paz é meio arrojado. Tem como objetivo dar a volta ao mundo para levar às pessoas que eu encontrar pelo caminho uma mensagem de Paz. Paz no trânsito. Paz no ecossistema viajando sem poluição. Paz aos corações das pessoas que se aproximam de mim durante a viagem.
Muita gente precisa de um ombro amigo; de uma pessoa de confiança com quem possam desabafar. E, não sei porque, ou talvez eu até saiba, elas sentem confiança em mim. Encontrei uma nova forma de fazer apostolado com alegria. E isto é muito gratificante. Não é preciso falar muito; basta saber escutar.

BSL: Há alguma maneira de acompanhar a sua viagem? Você criou algum site, blog, orkut ou coisa parecida?

VALDO: Toda a viagem vai ser relatada no Diário de Bordo que terá atualização semanal ou sempre que eu tiver acesso à Internet. Basta entrar no meu site.
Tenho também um blog com muitas notícias sobre as viagens.
Para melhor acompanhar a viagem, basta se inscrever no grupo de discussão Pedalando pela Paz que se encontra no site, no blog e no diário de bordo. Toda vez que eu atualizar o diário vou enviar uma mensagem ao grupo informando da atualização e passando também o endereço do Diário de Bordo.

BSL: Você tem algum apoio financeiro ou patrocínio para o projeto? Como as pessoas podem fazer para contribuir?

VALDO: Recebi um apoio de R$ 10.000,00 da FUNCULTURAL Secretaria de Estado de Turismo Cultura e Esporte de SC para ajudar na impressão dos meus livros.

Quem quiser contribuir com o Projeto Pedalando pela Paz pode fazê-lo como Padrinho ou Madrinha, depositando qualquer quantia na minha conta bancária:

Caixa Econômica FederalAgência: 4123 - Tipo: 013 - Conta: 4778-5

Depois é só enviar um e-mail para para que o nome do Padrinho ou Madrinha seja incluído na lista.

BSL: Recentemente você participou da BICICULTURA – Conferência Internacional de Mobilidade por Bicicleta, em Brasília. Como foi a sua participação e o que você pode concluir do encontro?

VALDO: A participação da BICICULTURA foi simplesmente maravilhosa. Tive a oportunidade de falar sobre as minhas viagens de cicloturismo para uma platéia que se mostrou muito interessada. Talvez a motivação maior foi ver um “velhinho” de barba e cabelos brancos falando sobre viagens fantásticas realizadas de bicicleta, em sete países da América do Sul. Um senhor de meia idade comentou no final da palestra. Eu vou começar a pedalar. Se o Valdo fez tudo isto iniciando sem nenhum preparo físico, eu também posso fazer.
A conclusão que tirei no final do encontro foi que finalmente o Brasil está despertando para o uso da bicicleta como meio de transporte alternativo. Um transporte barato, efetivo e que preserva a natureza da poluição. Existe muita gente empenhada em fazer esta mudança acontecer.


BSL: Você tem livros publicados sobre cicloturismo. Como podemos adquiri-los?

VALDO: Tenho três livros sobre cicloturismo:

Pedalando Solitário do Oiapoque ao Chuí
Pedalando e Desvendando a Carretera Austral
Pedal nas Nuvens – Uma aventura na Bolívia, no Deserto de Siloli

Para adquirir os livros basta entrar no meu site.


BSL: Vou repetir para você a pergunta que fiz para a Eliana Garcia, do Clube de Cicloturismo do Brasil: O que é cicloturismo, em apenas uma palavra?

VALDO: Liberdade!

terça-feira, 22 de julho de 2008

ENTREVISTA – ANDRÉ ALVIM E JORGE PEREIRA

Os ciclistas miracemenses André Alvim (42 anos) e Jorge Pereira (46 anos) percorreram de bicicleta as margens do rio Paraíba do Sul entre os dias 15 de junho e 5 de julho de 2008, desde a sua nascente na Serra da Bocaina (SP) até a sua foz, em Atafona (RJ), somando um total de 1150 km percorridos em 21 dias.

A viagem pode ser acompanhada com maiores detalhes em http://www.morroazuleventos.com.br/.

BikeSemLimites: Qual foi o principal objetivo deste projeto?

R: Nosso objetivo principal é mostrar que é possível e que devemos usar mais a bicicleta no dia-a-dia e em viagens de turismo, evitando assim a emissão de gases, pelo uso dos automóveis que tanto prejudicam o meio ambiente, aumentando a temperatura da terra.

BSL: Vocês tiveram algum tipo de apoio para a sua realização?

R: Tivemos o apoio de nossos familiares e amigos e também de parte do comércio de Miracema e principalmente o apoio da Miragás, uma empresa miracemense que sempre apóia o esporte e da Lógika, de Macaé, uma empresa de transporte e logística que atende em todo o território nacional.




BSL: Quais foram as maiores dificuldades encontradas para a realização do projeto?

R: Na verdade não tivemos dificuldades para a realização e sim um pouco de mão de obra para ir a campo conseguir os apoios financeiros e convencer amigos e familiares que era possível realizar tal projeto, coisa que com boa vontade, tiramos de letra.



BSL: E durante a viagem?

R: Durante a viagem sim, tivemos dois momentos difíceis:o primeiro foi quando passamos três dias empurrando as bicicletas pela serra da Bocaina em busca da nascente e às 15:30h do terceiro dia, após encontrarmos a nascente, tivemos que descer em busca de um abrigo para acampar, o que só aconteceu por volta de meia-noite e passamos muito frio e até fome. Outro momento difícil foi quando eu descia um morro em estrada de terra e pedra, quando o bagageiro dianteiro de minha bicicleta se soltou, travando a roda dianteira me jogando no chão. Foi uma pancada forte no joelho direito e só não foi pior porque usava luvas que protegeram minhas mãos.Fiquei dois dias de repouso tratando do joelho e depois, com bagageiro novo, seguimos a viagem.

BSL: Numa viagem como essa é possível tirar alguma lição? Que tipos de ensinamentos podemos trazer para a nossa vida após a realização de uma viagem assim?

R: Sim.Tivemos,vários ensinamentos e destaco um: Quando você desejar alguma coisa na vida, vá fundo, não desista, mesmo diante das dificuldades encontradas. Seja persistente e tenha acima de tudo boa vontade no que você irá fazer. “Quem acredita sempre alcança...”

BSL: Qual é o próximo projeto? Vocês já têm alguma coisa em mente?

R: Temos vários projetos em mente inclusive a volta da “Volta Ciclística e Ecológica de Miracema”, onde pedalamos em três etapas pela zona rural do município sempre passando próximo aos limites de divisa. Para 2009, pretendemos fazer uma cicloviagem pelas margens do Rio São Francisco, que nasce na serra da Canastra em Minas Gerais e deságua em Alagoas. Ainda temos muito que estudar pois o percurso é de aproximadamente 3.000 quilômetros e pensamos até em um carro de apoio.

BSL: Quais conselhos vocês dariam para quem deseja realizar uma viagem desse tipo?

R: A organização e o planejamento são fundamentais. Quanto mais organizado melhor. É muito ruim quando você está longe de casa e vê que faltou alguma coisa. Planeje bem o percurso escolhido, onde parar, onde dormir, etc. Outro fator importante é se preparar alguns meses antes da viagem. Faça um exame geral com o seu médico, faça treinamentos físicos e procure equipar sua bicicleta com peças resistentes e que facilitem o manuseio durante a cicloviagem.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

ENTREVISTA - Eliana Garcia




Eliana Britto Garcia é bióloga, micro empresária, guia de ecoturismo, educadora ambiental e diretora do Clube de Cicloturismo do Brasil (http://www.clubedecicloturismo.com.br/). Viaja de bicicleta desde 1988 e já realizou várias expedições, com destaque para: Expedição Parques del Sur (4200km pelo Chile, Argentina, Uruguai e Sul do Brasil), Expedição Titicaca, Sertão Nordestino, além das travessias do Pantanal, da Chapada Diamantina, da Chapada dos Guimarães, da Serra da Canastra e Terra Ronca e Chapada dos Veadeiros.

1- Como surgiu a idéia de fundar o Clube de Cicloturismo do Brasil?

Surgiu da necessidade de troca de informações entre os praticantes, pois notávamos que muita gente já viajava de bicicleta, mas todos se sentindo muito isolados, sem saber que havia muitos outros praticantes. Outro motivo foi pela vontade de divulgar mais a atividade no país, mostrar que é uma coisa acessível, que com um condicionamento físico médio e um equipamento que não precisa ser top dá para fazer viagens fantásticas de bicicleta. Bastante gente também tem vontade de começar e não sabe por onde, porque realmente uma viagem de bicicleta envolve muitos detalhes. Por isso criamos o site cheio de informações práticas e com relatos de viagens, para incentivar e empolgar o iniciante.

2- Como você avalia, hoje, o cicloturismo no Brasil?
O cicloturismo está em amplo crescimento no Brasil. Hoje no Clube temos 10 mil cadastrados, de todos os estados do país, e este número cresce a cada dia. Cada vez mais pessoas percebem como é simples e fascinante viajar de bicicleta. Muitos empreendedores estão descobrindo também o cicloturismo como um bom mercado e com isso vem crescendo o número de agências que oferecem pacotes e passeios de bicicleta, hotéis com roteiros específicos, sem falar dos municípios de regiões turísticas que abraçaram o cicloturismo, como é o caso do Circuito Vale Europeu, em Santa Catarina.
3- Você já realizou alguma viagem solo? Quais?
Não, sempre viajei em companhia de mais uma ou duas pessoas. Mas creio que viajaria sozinha se não tivesse companhia, escolhendo bem os roteiros que oferecessem maior segurança. Por exemplo, não me arriscaria a ir sozinha para alguns locais onde já viajei, por serem muito isolados, mas há inúmeras opções de locais tranqüilos no Brasil.
4- Muitas pessoas me questionam sobre os riscos durante uma viagem solo. Você já teve algum contratempo relativo a assaltos ou coisa parecida?
Tenho muitos amigos, e amigas inclusive, que viajam sozinhos, por opção ou por não encontrarem companhia na época de férias. Nunca tive notícia de problemas com assaltos, somente furtos. Por exemplo de deixarem a bicicleta destrancada e entrar em algum comércio, e levarem alguma coisa da bicicleta ou até a própria, mas aí é dar bobeira demais. Tomando os cuidados mínimos o risco não é tão grande. É claro que se deve evitar as cidades grandes, principalmente as periferias delas. E é necessário estar sempre atento, principalmente quando se está sozinho não é bom ficar distraído. Mas isso vale para qualquer viajante e não especificamente para o cicloturista. Além disso, é importante ser discreto, quanto mais simples você e sua bicicleta estiverem, menos vão chamar a atenção.
5- Quais são os maiores riscos quando se viaja de bicicleta?
Os riscos são basicamente os de qualquer viajante. Você tem que tomar cuidado com o que come, com o que bebe e pra quem dá atenção. Um bom planejamento ajuda bastante para evitar surpresas desagradáveis. Saiba sempre a melhor época de se viajar na região, pesquise sobre o clima, as estradas, etc. Fora isso o mais importante é cuidar de sua segurança no trânsito: pedalar sempre equipado com capacete e luva, manter a bicicleta em boas condições, evitar pedalar à noite, seguir as normas de trânsito e principalmente, ir sempre devagar. Quanto maior a velocidade maior a gravidade das conseqüências no caso de uma queda.
6- Muitas pessoas ainda encaram o cicloturista como maluco. O que dizer para essas pessoas?
Para elas tentarem alguma vez, sentir de novo a alegria de se pedalar com liberdade. Pedalar e viajar são duas coisas que fazemos desde crianças e juntar as duas coisas não é tão absurdo assim. Há locais e pessoas maravilhosas no Brasil, só esperando que passemos de bicicleta para interagir. No começo os parentes e amigos estranham um pouco a idéia, mas logo que você volta da viagem com as histórias e fotos, todos ficam muito empolgados. Até a mãe da gente se acostuma um dia, e você acaba virando mais um motivo de orgulho pelas viagens que faz.
7- O que é o cicloturismo, em apenas uma palavra?
Magia!
8- Há algum assunto que eu poderia ter abordado e não o fiz? Você gostaria de comentar?
Acho que não. Excelente a iniciativa de criar o site e dar mais força para o cicloturismo. Parabéns e boas pedaladas a todos.